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A Nova Cruzada Democrática

20/03/2011

A Nova Cruzada Democrática

Tinha que ser.

Nas próximas horas, talvez mesmo nestes minutos, as forças dos Países Ocidentais podem intervir na Líbia.
Com que direito? Nenhum.

A ONU autorizou o uso da força. A resolução não foi votada pela Alemanha, Índia, Brasil, Rússia e China, que todavia não tiveram a coragem de vetar ou votar contra. Parabéns a todos.

Doutro lado, a ONU tornou-se uma espécie de Departamento da Legalidade que os Estados Unidos e os Países Ocidentais utilizam para justificar as próprias agressões militares.
Já tinha funcionado com o Iraque e com o Afeganistão, porque não deveria ter funcionado agora?

De facto, a situação na Líbia tinha-se tornado delicada.
A operação de revolta suportada pela intelligence ocidental estava a falir miseramente.
Khadafi estava perto de reconquistar o terreno perdido.
A implementação da Democracia ficava em risco.
Inaceitável. A Democracia é um dos principais dogmas da nossa sociedade, talvez o primeiro. Sobretudo em Países com petróleo e gás.

Apoiar os rebeldes com intervenções militares directas? Sim, boa ideia, mas havia um problema: até prova contrária, a Líbia é um Estado soberano. Discutível, sem dúvida, mas sempre soberano.

Para boa sorte existe a ONU. Ban Ki-moon, o actual Secretário Geral, é inflexível: invadir um País pode ser feito apenas com a autorização dos mais fortes e após apresentação de provas, mesmo que falsas (na ONU ninguém é estúpido até o ponto de controlar a veridicidade das provas). Neste aspecto, Ban Ki-moon é um exemplo para todos.

Por isso, primeiro passo: criação das provas.
Simples, muito simples: pega-se nos revoltosos armados e começa-se a chama-los “manifestantes”.

Reparem: aparentemente é apenas uma palavra, mas a diferencia é substancial. “Revoltosos” dá a ideia de pessoas enervadas, armadas, com maus feitios; “manifestantes”, pelo contrário, dá a ideia de pessoas pacíficas, inteiras famílias com crianças ao colo que desfilam amavelmente nas ruas das cidades, cantando e abraçando todos.

Bombardear revoltosos é normal: é uma guerra.
Mas bombardear manifestantes?
Minha Nossa, que horror, que desumanidade, isso não se faz e é preciso intervir. Já.

Segundo passo: operação “Corações de manteiga e cérebros de pudim”.
Espalham-se pelo mundo fora relatos construídos, testemunhos falsos: todas “provas” da brutalidade do regime. Neste aspecto é o mesmo Khadafi que ajuda, pois nunca foi um exemplo de humanidade e respeito pelo próximo.

Apresentam-se aos cidadãos de todo o planeta estes relatos até que o último dos aborigenas australianos pergunte: mas como é que a ONU pode permitir isso?

Nesta altura o plano está pronto. E quando parecer claro que a invasão do País é coisa certa, pergunta-se se houver alguém disponível para participar nesta nova cruzada humanitária.

Aqui, por esquisito que possa ser, aprece um novo problema: é que as cruzadas custam. Por isso, antes de pôr em marcha todo este processo, é preciso fazer bem as contas.

Por exemplo: os pobres “manifestantes” têm algo de interessante? Tipo petróleo, gás ou ao menos uma posição estratégica decente? Se a resposta for não, então o processo pára logo, nem é preciso fabricar provas falsas, pois não há suficiente retorno económico.

As recentes Cruzadas tinham todas amplas justificações: petróleo no Iraque, droga e estratégia no Afeganistão. Mas na Líbia?
Nenhum problema: no caso do País da África do Norte há petróleo e gás. O máximo.

Por isso Cruzados não faltam.

Há um último aspecto curioso.

Mas estes Cruzados não são os mesmos que até poucas semanas atrás costumavam visitar e abraçar o mau Khadafi?

Os mesmos que ao longo de 40 anos fecharam os olhos perante as atrocidades perpetradas pelo mau Khadafi?

Os mesmos que importaram enormes quantias de petróleo e gás sem fazer demasiadas perguntas acerca de onde e de como tais riquezas chegassem?

Sim, são os mesmos. Então, qual o problema?
Uma coisa é comerciar com um feroz ditador. Outra é comerciar com um bruto que bombardeia inermes manifestantes.

Por isso, uma das primeiras medidas será bombardear Tripoli. Pois temos de admitir: uma coisa é bombardear manifestantes em Bengasi, outra é bombardear cidadãos em Tripoli.
Não há comparações.

Que acabe a paz no Mediterrâneo: está na hora duma Nova Cruzada Democrática.

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