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Japão torna público pacto secreto com os EUA durante a Guerra Fria

10/03/2010

Era um segredo de Polichinelo. Mas ainda assim, foi a primeira vez, depois de décadas de negação, que o Japão reconheceu oficialmente ter firmado um pacto secreto com os Estados Unidos durante a Guerra Fria.

A questão nuclear é sensível no único país vítima de um ataque (Susumu Takahashi/Reuters)

Desde os anos 1960 que os conservadores nipónicos negavam a existência de acordos que permitiam aos Estados Unidos entrar no Japão com material nuclear, numa violação a um conjunto de princípios adoptados pelo Governo do país. Esta terça-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Katsuya Okada, tornou público um relatório de uma comissão de historiadores confirmando o que os próprios arquivos de Washington já tinham revelado.

O painel dá conta de quatro pactos, e um deles permitia que os navios ou aviões nucleares norte-americanos fizessem escala em território nipónico. Outro consentia ainda o depósito de armas atómicas em Okinawa, mesmo depois de a ilha ter sido devolvida ao Japão, em 1972. Isto, apesar de o Governo ter adoptado os “três princípios antinucleares” – ou seja, o Japão não pode produzir, possuir ou deixar entrar no seu território qualquer arsenal nuclear.

“Estes princípios foram anunciados em 1967 pelo primeiro-ministro Eisaku Sato, o mesmo que depois negociou os pactos com [o Presidente norte-americano, Richard] Nixon”, comenta ao PÚBLICO John Swenson-Wright, analista da Chatham House. Isto decorre do facto de que, durante a Guerra Fria, “eram os Estados Unidos que davam protecção ao Japão, e as armas nucleares eram consideradas importantes para essa protecção”.

Condenações do Governo

“Ao tornar este assunto ambíguo, os navios [americanos] com material nuclear podiam parar nos portos japoneses sem consultar ninguém, enquanto o Japão, como postura oficial, podia negar que isso acontecesse”, lê-se no relatório citado pela agência Kyodo.

Para o chefe da diplomacia do Governo liderado pelo Partido Democrata do Japão (PDJ), que no ano passado quebrou quase meio século de domínio dos conservadores do Partido Liberal Democrata (PLD), “é extremamente lamentável que este problema tenha sido escondido dos japoneses durante tanto tempo”. “Fazer transitar navios equipados de armas nucleares no seu território viola a política do Japão de proibir a existência de armas nucleares no país”, sublinhou Okada, citado pela AFP.

A questão nuclear é particularmente sensível para os japoneses, os únicos que até agora sofreram um ataque, quando os EUA bombardearam Hiroxima (140 mil mortos) e Nagasáqui (75 mil mortos) no final da II Guerra Mundial.

Mais de 4400 documentos

A comissão de historiadores, mandatada desde Outubro para analisar 4423 documentos dos arquivos dos Negócios Estrangeiros e da Embaixada dos EUA em Tóquio, confirmou ainda outros dois acordos: um que permitia aos soldados americanos usar o território japonês em caso de um conflito na península coreana; outro prevendo o pagamento a Washington pela devolução de Okinawa à administração nipónica.

A aliança estabelecida entre o Japão, derrotado na guerra, e os EUA mantém-se até hoje, com 47 mil soldados americanos mobilizados em várias bases no território japonês.

A maior delas, na ilha de Okinawa, constitui um dos grandes focos de tensão entre os dois países, sobretudo depois de o primeiro-ministro, Yukio Hatoyama, ter prometido aos japoneses uma “relação mais equilibrada e de igual para igual” com Washington. Hatoyama apressou-se a garantir que este relatório não vem afectar “as relações futuras”.

O relatório surge num momento em que a popularidade de Hatoyama está em queda livre nas sondagens, com eleições para o Senado previstas para Julho. John Swenson-Wright não vê aqui um aproveitamento político. “Todas as teorias de conspiração têm o seu fundo de verdade… mas, mesmo antes de ir para o Governo, o PDJ já prometia clarificar esta situação”. O que mais irá influenciar os eleitores, diz o analista, é mesmo a forma como o problema da base de Okinawa será resolvido.

09.03.2010 – 22:03 Por Francisca Gorjão Henriques , Público

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