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HOUZAN MAHMOUD: VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES E OCUPAÇÃO DO IRAQUE

04/03/2010

Brutalizadas para que o Ocidente possa lucrar

23 Dezembro 2009

 A activista iraquiana Houzan Mahmoud é muito nova para se lembrar do golpe apoiado pela CIA, em 1963, para derrubar Abdel Karim Kassem.

Cinco anos antes, o General Kassem destituíra a monarquia iraquiana, aliada do Ocidente, e recuperara terras e petróleo da Companhia de Petróleo do Iraque, dominada pelos britânicos.

 Durante o golpe, dezenas de milhares de comunistas, juntamente com grande parte da elite educada pró-democrática do Iraque, foram arrastados das suas casas e abatidos a tiro nas ruas. O seu “crime” era terem apoiado um líder com boas relações com a União Soviética.

 Mahmoud não se pode recordar deste episódio sangrento, mas lembra-se bem dos anos de opressão do regime de Saddam Hussein, que foi colocado no poder poucos anos depois do golpe e apoiado pelo Ocidente – até ele próprio mostrar sinais de “deserção”.

 O derrube sangrento de Kassem foi quase uma cópia a papel químico do golpe conjunto da CIA e MI6 no vizinho Irão, dez anos antes, contra o líder democrático Mohammed Mossadeq, que também havia tentado nacionalizar o petróleo do seu país.

 “O Ocidente, que tem sido instrumental em derrotar as forças progessistas na região desde há gerações, agora ousa rotular-nos de retrógrados. Como se atrevem a retratar as nossas mulheres como vítimas submissas de burqa e os nossos homens como um bando de terroristas barbudos e misóginos?” pergunta Mahmoud.

 “Eles instauraram um regime corrupto na minha terra natal, apoiando as suas leis reaccionárias em nome dos valores tradicionais do Iraque.“

“Da mesma forma, apelidaram de justiça iraquina a selvagem execução de Saddam, mas nós sabemos que eles instigaram o linchamento para evitar que ele os incriminasse num tribunal livre e imparcial.”

 Ninguém sabe ao certo quantas mulheres e crianças iraquianas foram vendidas para a escravatura sexual desde a Operação Liberdade para o Iraque, conduzida pelos EUA em 2003.

O grupo para o qual Mahmoud trabalha – a Organização para a Liberdade das Mulheres no Iraque (OLMI), sedeada em Bagdade – pensa serem dezenas de milhares.

 “Crimes de que antes não se ouvia falar, agora são comuns. As chamadas mortes pela honra dispararam e o desemprego massivo empurrou muitas mulheres, especialmente as viúvas da guerra, para a prostituição” afirma ela.

“As mulheres desapareceram completamente da vida pública, com medo de serem violadas, mortas, raptadas ou traficadas para o estrangeiro”

 Outrora, os direitos e as liberdades das mulheres iraquianas causavam inveja às suas irmãs oprimidas em grande parte do Médio Oriente. Agora não.

 Graças à benigna intervenção humanitária de dois extremistas cristãos, também elas enfrentam a perspectiva de viverem num regime autocrático que apoia a misoginia em nome da religião.

 Mahmoud salienta que a legislação que permite casamentos poligâmicos foi aprovada no ano passado pelo governo regional fantoche do Curdistão, apesar da indignação pública.

 E a constituição provisória do Iraque abriu caminho à opressiva lei da Sharia.

 “Mas a esquerda está a lutar contra isso e renascerá das cinzas, como fizemos no passado”, diz Mahmoud, que visita regularmente o Iraque e que está activa nas rejuvenescidas organizações sindicais e dos direitos das mulheres no seu país.

Os trabalhadores não sindicalizados das petrolíferas no sul têm sido um espinho cravado nos planos dos EUA e do Reino Unido para controlar os ricos recursos do Iraque. E desde a sua fundação em Junho de 2003, a OLMI organizou fortes manifestações de milhares de pessoas, seminários e campanhas contra a ocupação e por um Iraque secular e democrático.

 Este grupo também dá abrigo e apoio a vítimas de violência doméstica e a mulheres que escapam de proxenetas e de traficantes, embora tenha muito poucos recursos.

 “Trouxemos 2000 mulheres para as ruas de Bagdade no Dia Mundial da Mulher em 2004, no pico da guerra, quando as mulheres nem se atreviam a sair”, relembra Mahmoud com orgulho.

 “Desde então tivemos muitas campanhas bem sucedidas, incluindo quebrar o silêncio em torno da prostituição e forçar um debate sobre o tráfico de mulheres, que agora levou à elaboração de uma proposta de lei para terminar com o problema”.

Mahmoud sublinha que a OLMI “é o oposto de muitas das organizações sectárias com que temos que nos debater. Temos mulheres seculares a trabalhar lado a lado com as suas irmãs de véu. E muitos homens apoiam a nossa campanha porque cresceram numa sociedade que não era tão brutal no que respeita às relações entre géneros.”

A ampla aceitação da organização e a sua posição de não cedência tornou-a impopular junto do governo apoiado pelos EUA, que se recusa a atribuir-lhe o estatuto de ONG.

 “Eles têm as suas próprias ONG farsa, que não têm uma base popular e que trabalham a partir de escritórios bonitinhos, com grandes salários e segurança privada”, diz Mahmoud.

 No Reino Unido, ela está a estabelecer relações com grupos progressistas para sensibilizar sobre o impacto que as guerras no Médio Oriente têm nas comunidades operárias neste país e para alterar a imagem sinistra que o Ociente tem do povo do Iraque e do Afeganistão, a de selvagens que precisam de ser salvos deles próprios.

O “Blowback” – as consequências violentas da guerra ao terrorismo – manifestou-se de uma forma perturbadora.

O exército tenta recrutar adolescentes em áreas desfavorecidas assoladas pelo desemprego massivo. Embrutecidos pela guerra e abandonados pelo Estado que os mandou para lá, inúmeros soldados que regressam a casa em ambos os lados do Atlântico estão a levar a violência para as suas próprias casas e comunidades, seja pelo consumo de drogas, abusos domésticos ou homicídio.

“Em tempo de guerra, a violência, especialmente contra as mulheres, aumenta, devido a uma sociedade mais militarizada e machista”, observa Mahmoud.

 “Porque as minorias continuam a ser tratadas como o inimigo interno…estão cada vez mais vulneráveis a ataques racistas.”

“Causa surpresa a alguém o facto de alguns se voltarem para o bafiento conforto da tradição reaccionária e patriarcal quando se encontram longe da familiaridade de ‘casa’, sentindo hostilidade e racismo na sua nova pátria ‘civilizada’?”

 “Isto, em parte, reflecte-se no aumento da violência contra as mulheres – mortes pela honra, casamentos forçados.”

 Mas Mahmoud teme que haja um enfoque pouco saudável nos casos de abusos domésticos e nas chamadas mortes pela honra nas comunidades de minorias étnicas, que sirva para os afastar ainda mais do resto da sociedade.

 “Há um certo preconceito nos media que reproduz a atitude racista que retrata estas comunidades como grupos de forasteiros não integrados e selvagens.”, afirma.

Mahmoud também está preocupada que o enfoque em ‘mortes pela honra’ brutalmente exóticas e mediáticas sirva para desviar as atenções dos níveis chocantes de violência contra as mulheres na sociedade em geral.

 “O facto de, no Reino Unido, duas mulheres por semana serem assassinadas pelo parceiro ou ex-parceiro é prova de que aí também há ‘mortes pela honra’”, salienta Mahmoud, acrescentando: “Dizem constantemente às mulheres que elas são feias e gordas e encorajam-nas a fazer cirurgias plásticas e dietas – também isso é violência contra as mulheres.”

 “A diferença é que, enquanto no Médio Oriente a violência é frequentemente apoiada ou legitimada pela lei, aqui é-nos vendida como cultura pop, moda ou mesmo ‘girl power’.”

 Para Mahmoud, o que nos une é o facto de “todos vivermos num sistema capitalista de classes”, um sistema que ela acredita que só pode ser vencido “lutando pelo nosso interesse de classe comum – ou seja, lutando pelo socialismo”.

Nota: A Organização para a Liberdade das Mulheres no Iraque (OLMI) chama-se, em inglês, Organisation for Women’s Freedom in Iraq (OWFI).

(Traduzido por PF para Antinatoportugal)

 http://www.morningstaronline.co.uk/index.php/news/content/view/full/84883

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