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Base das Lajes: as ameaças do Cônsul dos E.U. ( entrevista)

15/02/2010

Manutenção da Base passa por campo de treino

O Cônsul dos Estados Unidos nos Açores assegura que, a concretizar-se ainiciativa, o treino vai decorrer no espaço aéreo internacional sobreo oceano, portanto, não causando perturbação aos voos comerciais nem àpopulação local. A contaminação das águas utilizadas pelas populações continua…

O entrevistado da Rádio/Açores TSF desta semana é o Cônsul dos Estados
Unidos, que está nos Açores desde Setembro do ano passado.

TSF: Gavin Sundwall veio da América do Sul: a transição do Castelhano para o
Português foi muito difícil?

GS: Muito. A minha esposa é do Panamá e em casa ainda falamos em Castelhano. Estamos a tentar mudar para o Português.

TSF: Quais as suas primeiras impressões sobre o arquipélago dos Açores?

GS: São ilhas bonitas e a natureza é impressionante.

TSF: Já conhecia os Açores?

GS: Não, é a primeira vez que estou cá. Agora, já tivemos oportunidade de visitar todos os concelhos de São Miguel e também as ilhas do Faial e Terceira.

TSF: Pensa visitar as outras ilhas?

GS: Sim. Tenho um plano para, ao longo da minha missão aqui nos Açores, visitar todas
as ilhas.

TSF: Quais as suas prioridades enquanto cônsul do Estados Unidos nos Açores?

GS: Os nossos países sempre mantiveram um bom relacionamento,o que facilita a minha tarefa. Primeiro, gostaria de congratular o jornal mais antigo de Portugal pelos seus 175 anos e também recordar que o consulado mais antigo do meu país está precisamente aqui nos Açores, numa operação contínua desde 1795, ou seja, uma parceria positiva de 215 anos. Posto isto, no meu consulado, gostaria de estabelecer boas parcerias para melhorar as condições dos Açores e do meu país. De modo concreto, gostaria de trabalhar em três áreas: energias renováveis, resposta aos desastres naturais e intercâmbios educativos, económicos, turísticos e culturais.

TSF: Por exemplo, como pretende fortalecer os laços entre os dois países ao nível das
energias renováveis?

GS: Os Açores, Portugal e os Estados Unidos são líderes em implementar novas fontes de energias renováveis. A situação aqui é impressionante, nomeadamente, as metas que a Região estabeleceu para obter 50% da electricidade a partir de energias renováveis até 2014 e 75% até 2018. Estamos disponíveis para aumentar a cooperação nessa área, e, nesse sentido, vamos proporcionar, já em Março, uma visita a uma comitiva portuguesa ao Laboratório Nacional das Energias Renováveis, em Denver, Colorado, onde haverá oportunidade para aprender mais sobre “smart grids” (grelhas inteligentes) e mobilidade eléctrica. Esse grupo vai também visitar uma fábrica de viaturas eléctricas, em Detroit. Os Estados Unidos, que durante décadas apostaram em grandes carros e de consumo elevado, são agora “obrigados” a apostar em viaturas mais eficientes, não é assim? Temos
que fazer essa mudança. É muito importante para a economia, para a segurança e para o ambiente, especialmente nesta fase da economia mundial. Mas, é também uma nova oportunidade de negócio. A indústria automóvel dos Estados Unidos da América sofreu um embate muito forte… Exactamente. É uma mudança difícil para os condutores, especialmente por causa dos carros pequenos. Está a ver os norte-americanos a conduzir carros pequenos, como acontece na Europa?

TSF: (Sorrisos) Eventualmente, provavelmente. Durante alguns anos os Estados Unidos têm sido apontados como um “outsider” relativamente às questões ambientais.
O presidente Barack Obama alterou essa forma de fazer política?

GS: Sim, com o mandato de Barack Obama, os Estados Unidos da América estão dispostos a estabelecer parcerias em todo o mundo para enfrentar as alterações climáticas, que na minha opinião constituem o desafio desta geração. Temos problemas graves para resolver. Relativamente a outro aspecto que referiu no âmbito da cooperação, a resposta a desastres naturais, que infelizmente costumam atingir os Açores com alguma frequência.

TSF: o que podem fazer os Estados Unidos da América?

GS: No âmbito do Acordo da Base das Lajes, estamos a planear mais apoio, em termos de treino e material, para os Bombeiros Voluntários e Protecção Civil.

TSF: Reuniu com os responsáveis regionais nessas áreas?

GS: Sim, com António Cunha (Serviço Regional de Protecção Civil e Bombeiros dos Açores) e com José Contente (secretário regional da Ciência, Tecnologia e Equipamentos).

TSF: A nível dos intercâmbios, o que se vai passar?

GS: Os intercâmbios são muito importantes. Este ano, a 24 de Fevereiro, a Universidade dos Açores e a Comissão Bilateral, vão assinalar 50 anos do Programa Fulbright (bolsa de estudos) em Portugal e em todo o mundo. Este programa é um bom símbolo da cooperação. A esse propósito, posso dizer-lhe que nestas últimas cinco décadas mais de dois mil estudantes participaram nesse programa. A Educação é parte essencial da cooperação externa do meu país. No que concerne à Economia, considero que, neste momento, o mercado dos Estados Unidos tem que ser um destino preferido dos produtos dos Açores. Essa procura deve dirigir-se para o leite e derivados, mirtilos de alta qualidade, entre outros artigos.

TSF: Tem havido notícias relacionadas com eventuais embargos dos Estados Unidos a produtos açorianos. Há ou não entraves burocráticos à entrada dos produtos locais?

GS: É uma medida do nosso Departamento de Agricultura para monitorizar todos os produtos, em especial, os lacticínios dos países da Europa. São testes regulares.

TSF: O dossier relativo à Base das Lajes tem sido um problema para si, de modo concreto, as questões laborais? Tanto quanto sei a maioria dos trabalhadores portugueses está satisfeita. O Acordo está na Assembleia da República para ser ratificado e depois entrará em vigor.

GS: Mas, o Sindicato que representa os trabalhadores da Base das Lajes tem
contestado esse Acordo… Tal como disse o presidente do Governo regional
é um bom acordo para todas as partes envolvidas.

TSF: O Sindicato representa, de facto, os trabalhadores da Base das Lajes, ou tem outra leitura?

GS: Não estou em posição de comentar. O que lhe posso dizer é que a maioria dos trabalhadores está satisfeita.

TSF: Que papel está reservado para a Base das Lajes: por exemplo, a agenda norte-americana poderá ir no sentido de reduzir o contingente destacado nas Lajes ou mesmo extinguir a sua presença?

GS: Tal como disse o Embaixador nomeado perante o Comité dos Assuntos Estrangeiros do Senado dos Estados Unidos, a Base das Lajes precisa de novas missões para manter a sua relevância. O aumento da autonomia dos nossos aviões militares está a reduzir a necessidade de manter o contingente actual, então, procurámos novas missões para manter essa relevância no futuro.

TSF: E que missões são estas?

GS: Uma possibilidade é uma iniciativa bilateral, que se chama “Iniciativa de Treino Aéreo”. Parece-me que o problema é que ainda há alguma falta de informação acerca deste assunto.

TSF: Esta é uma excelente oportunidade para explicar em que consiste.

GS: Exactamente. O treino vai dar oportunidade aos pilotos norte-americanos e portugueses para aumentar as suas capacidades. O treino vai decorrer no espaço aéreo internacional sobre o oceano, portanto, não causa perturbação aos voos nem à população. Esta Iniciativa vai permitir manter a relevância da Base na preparação da defesa dos Estados Unidos e da Nato. Outro aspecto: os estudos ambientais poderão ser suficientes para “cobrir” esta Iniciativa, mas só o saberemos depois de uma proposta formal.

TSF: Outros planos para manter a relevância da Base das Lajes?

GS: Neste momento estamos a discutir a Iniciativa do Treino Aéreo.

TSF: Mudemos de assunto. A imagem externa dos Estados Unidos, bastante “maltratada” durante a presidência de George Bush, tem sido alterada com Barack Obama?

GS: Com o presidente Barack Obama, e também com a secretária de Estado Hillary Clinton, a nossa mensagem é que gostamos de trabalhar em conjunto com todo o mundo.

TSF: Os Estados Unidos são muitas vezes encarados como “super cup of the world” (super- polícia do mundo). Não falta um contrapeso internacional, que conta apenas com
uma superpotência?

GS: A situação económica mundial e as alterações climáticas obrigam-nos a trabalhar com parceiros em todo o mundo.

TSF: falta um contrapeso?

GS: Como disse o meu presidente, Barack Obama, quando recebeu o Prémio Nobel,
os maus actores existem e temos que os defrontar.

TSF: Como diplomata, de que modo encara o crescimento político e económico da China: parceiro ou ameaça?

GS: Um parceiro e uma força positiva para o mundo. A cada ano os chineses têm um papel mais preponderante no mundo e precisamos da sua ajuda para enfrentar situações como as criadas, por exemplo, no Irão, Somália, entre outros países. Portanto, a China tem uma oportunidade para ser boa parceira dos Estados Unidos e de todo o mundo.

TSF: Esta semana foi noticiado que a ETA estava a operar em Portugal. Os Estados Unidos ficaram preocupados?

GS: Os Estados Unidos estão preocupados com os terroristas que actuam em todo o mundo. Estamos disponíveis para ajudar os nossos aliados a enfrentar os terroristas em todo o mundo. Creio que ainda é cedo para falar com propriedade acerca do que se passou em Portugal.Vamos esperar.

TSF: Estamos a terminar a entrevista. Voltemos a falar dos Açores, da Ilha Terceira, e da contaminação da água na zona das Lajes, que gerou muitas notícias e opiniões diversas. O que é que se sabe?

GS: O destacamento norte-americano sedeado na Base das Lajes tem colaborado
com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, mas o estudo ainda não está concluído por parte daquela entidade. O que lhe posso dizer é que segundo as análises já feitas pela Câmara Municipal da Praia da Vitória e pelo destacamento norte-americano, as águas não estão contaminadas com combustível da Base. Permita-me ainda o seguinte:
para mim é estranho que não haja mais notícias positivas sobre o papel do destacamento norte-americano nas Lajes. Por exemplo, a cada ano, a Base americana das Lajes injecta muito dinheiro na economia daTerceira. Em 2008, estamos a falar de 93 milhões de US dólares. No ano passado, e pela primeira vez, o destacamento efectuou mais de 50% das
compras básicas na economia local, o que, para além do aspecto financeiro, também dá visibilidade aos produtos locais. Os norte-americanos ajudaram também financeiramente as organizações locais que lutam contra o cancro da mama.

TSF: Portanto, uma boa relação de vizinhança?

GS: Somos como uma família, que às vezes tem problemas, mas que gosta e procura sempre resolver as questões de forma positiva.

TSF: Falou há pouco de uma “bad press” (má imprensa) com relação à actividade norte-americana na Base das Lajes. Na sua opinião, o que se passa?

GS: Bem, penso que fundamentalmente resulta da falta de informação sobre a situação, o papel e as realizações do destacamento norte-americano.

TSF: O acesso à informação, por parte dos jornalistas açorianos, é fácil ou não?

GS: Bem, os jornais têm que vender e os títulos negativos normalmente funcionam melhor desse ponto de vista. De qualquer modo, creio que a história do destacamento norte-americano na ilha Terceira é positiva. Tanto mais que a relação entre os dois países não se resume à Base…

TSF: .. Sim. A Base das Lajes só é parte da relação entre os Estados Unidos e os Açores.

GS: Temos muita actividade aqui na Região, com o Governo Regional, as câmaras municipais, a Universidade dos Açores e os clubes (Rotários e Lions Club).

paulo simões/pedro nunes lagarto

Fonte: Açoriano Oriental, 14 de Fevereiro de 2010

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