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2010, o ano da escalada afegã

01/01/2010
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28-Dez-2009
Afeganistão: Soldado da Nato em Kandahar, após mais um atentado no dia de Natal de 2009Enquanto enterra dinheiro e recursos para salvar a face da NATO no Afeganistão, o governo prepara-se para receber, nos finais do novo ano, uma cimeira da aliança.
Artigo de Jorge Costa

2009 terminou com a clarificação da política de Obama para o Afeganistão. O anúncio de mais 30 mil tropas norte-americanas – a que se somam outras 7.500 de países aliados dos EUA – confirmou a opção pela escalada na ocupação do país mais pobre do mundo. Confirmou, sublinhe-se, porque desde o início do seu mandato que Obama vinha multiplicando o investimento militar: mais tropas, mais ataques aéreos, mais meios militares, mais mercenários. 2010 anuncia-se assim como o ano do alargamento da guerra: num ano de mandato, Obama multiplica por três as tropas ocupantes (serão 100 mil em 2010) e duplica os mercenários no terreno (mais de 100 mil hoje, poderão chegar a 150 mil quando se completar o desembarque dos reforços).

O fracasso está à vista: o país continua a bater recordes de miséria e está classificado pela Transparency International como o mais corrupto do mundo, logo depois da Somália. O tráfico de heroína retomou os níveis exorbitantes dos anos pré-taliban e os ocupantes não conseguem pôr de pé um arremedo de forças armadas (um quarto dos recrutas afegãos treinados em 2008 já desertaram).

Passados oito anos, vale a pena lembrar a justificação original desta guerra: a perseguição aos autores dos atentados de 11 de Setembro de 2001. Nessa altura, a Al-Qaeda e os talibãs eram mostrados como a mesma coisa. Tomada Cabul, a guerra afegã era apresentada como questão de cirurgia anti-terrorista em refúgios montanhosos e ficava ofuscada pela aventura seguinte, o Iraque. Oito anos depois, a al-Qaeda não passará de uma centena de operacionais em todo o Afeganistão (segundo um relatório dos serviços secretos citado pela ABC), mas os norte-americanos continuam a não controlar grande parte do território afegão, deslocam-se com enorme risco, tiveram o ano de maiores perdas desde a invasão e desdobram-se em esforços de suborno de talibãs “moderados”, os aliados que ali podem arranjar. O fracasso militar é tanto mais clamoroso quanto a guerrilha é uma força com menos recursos que os mujahedines armados por Reagan contra a URSS nos anos 80. Hoje, são norte-americanos os habitantes da antiga base militar soviética de Bagram e é em visita a Moscovo que vamos encontrar o secretário-geral da NATO, angariando apoio russo para o governo Karzai.

Mas o pior pode estar ainda para vir. Chama-se Paquistão e já mudou o nome à guerra – agora designada “Afpak”, Afeganistão-Paquistão. Segundo o New York Times, a Casa Branca autorizou o aumento do número de bombardeamentos com aviões não-pilotados (drones) em território tribal paquistanês, estando a negociar com o governo do Paquistão o alargamento destas operações a refúgios de combatentes afegãos no Baluquistão paquistanês, já fora das áreas tribais fronteiriças. Estes ataques podem ter efeitos devastadores: não só são conhecidos vários casos de massacre de civis como, sempre que estas operações ocorreram em território do Paquistão, causaram verdadeiras tormentas políticas num país que é potência nuclear e onde o extremismo se tem desenvolvido.

Ao anunciar a guerra, o Nobel da Paz pintou-a com as cores de “esperança” que costuma usar: Obama trazia na algibeira vagas menções a uma retirada futura (“…que nos permita iniciar a transferência das nossas forças em Julho de 2011”). Mas essas palavras foram esvaziadas no próprio dia pelo secretário da Defesa, Robert Gates (“estaremos no Afeganistão nos próximos anos”), e pelo conselheiro de Segurança Nacional, o general James Jones (“Julho de 2011 é uma descida, não é um penhasco”).

Em 2010, Portugal estará comprometido de forma mais profunda nesta guerra. Das primeiras decisões de Augusto Santos Silva como novo ministro da Defesa foi o significativo aumento da presença portuguesa no Afeganistão, que poderá superar os 250 militares (até agora eram cerca de uma centena). Enquanto enterra dinheiro e recursos para salvar a face da NATO no Afeganistão, o governo prepara-se para receber, nos finais do novo ano, uma cimeira da aliança. Será um momento crítico do balanço da guerra de Obama e uma convocação para toda a esquerda: não queremos a NATO em Portugal, não queremos Portugal na NATO. E queremos todas as tropas ocupantes fora do Afeganistão. Em 2010, estaremos na rua a dizê-lo.

Jorge Costa

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