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[Artigo de Mário Tomé] Exércitos privados: solução moderna para as agruras da guerra

25/11/2009

[publicado em «A Comuna» 21-Nov-2009 ]

  Deixou então de haver o sentido glorioso do dever pátrio? Deixou.

Isso é conversa para conservadores reaccionários e proto-atrasados mentais (…) já não há literalmente «interesses  nacionais a defender». A finança tomou conta do mundo real através do mundo virtual das transacções sem base material.

«Os suicídios no Exército americano vão atingir um novo máximo. Este ano já morreram 140 soldados no activo, suspeitando-se de suicídio, a que se somam outros 71 que não estavam no activo. Em 2008, registaram-se 140 suicídios entre militares no activo, o número mais alto de sempre no Exército».
 Segundo esta notícia no «Público» parece que a tropa do Império anda incomodada. Os soldados em geral porque se suicidam. Os generais porque temem a repercussão que tal possa ter na opinião pública, já de si confrontada com duas guerras brutais e desgastantes e com o síndrome do Vietname, ou seja a derrota sem apelo nem agravo ao fim de vários anos de mortos, feridos e vítimas de stress post traumático.

Por outro lado a Administração norte americana é já famosa pelo desleixo ou desprezo institucional com que trata os militares que tiveram o azar de sobreviver a ferimentos graves e ficaram deficientes. O problema do serviço de saúde agora no centro da política de Obama, mostra como a «ideologia da nação americana» é avessa à solidariedade social.
 

Et pluribus unum (como até o Benfica sabe) ou seja que cada um existe distinguindo-se mas como parte do todo é uma legenda fundacional dos EUA mas não da sociedade norte-americana que entretanto se desenvolveu, em que cada um se diferencia contra os outros. 

 Os vitimados das guerras ficam mais coisa menos coisa entregues a si próprios. Diga-se em abono da verdade que cá por Portugal se passa mais ou menos o mesmo.  Portanto o ambiente não é nada favorável à saúde dos militares.
 No entanto há que notar que o pessoal que vai combater nas guerras do Império é voluntário; alista-se para ter um emprego, para ganhar dinheiro, para poder fazer um curso. Mercenários ao serviço do Estado. É só seguir o excelente filme de Robert Redford, «Peões em Jogo».
 Matar ou morrer, é um risco que antes de lá se estar se aceita com um certo à vontade. Mas que depois se torna uma autêntica provação, excepto para os que são viciados na adrenalina, veja-se o também excelente filme «Estado de Guerra», de Kathryn Bigelow. Os que não são viciados em adrenalina tornam-se viciados em heroína e cocaína. Ou então no massacre e na violação – se a gente os pode matar e torturar porque não podemos violá-los?!  Outro belo filme sobre a questão – «Censurado» de Brian de Palma. 
 Deixou então de haver o sentido glorioso do dever pátrio? Deixou. Isso é conversa para conservadores reaccionários e proto-atrasados mentais.
 Desde tempos imemoriais que a guerra é um assunto privado que impõe a matança às populações. Guerra de senhores, guerra de reis, guerra de burgueses.
 E as nações foram a criação mítica – tão mítica que chegaram a ser divididas a régua e esquadro como entidades políticas autónomas, independentemente daquilo que de facto unia e estruturava as sociedades, a língua, a cultura, os hábitos e costumes, – que permitiu arrebanhar e arregimentar milhões para defender e atacar interesses que lhes eram totalmente estranhos mas que em nome da Nação eram obrigados a assumir.
Depois da revolução francesa o recrutamento obrigatório tornou-se um símbolo da glória da revolução, a cidadania assumida em toda a sua plenitude.
 Mas isso só durou até que Napoleão perdeu totalmente o sentido da revolução e, portanto, o sentido da estratégia.
 Durante a Comuna de Paris, em 1871, quando o Estado prussiano e o Estado francês que faziam morrer aos milhares os soldados de ambos os lados, pararam a guerra e se aliaram para permitir o esmagamento da Comuna, ficou finalmente claro que o real inimigo de ambos era o proletariado e que derrotando o proletariado francês se derrotava também o proletariado alemão.

A I Guerra Mundial, a primeira guerra imperialista, levou para o açougue milhões de soldados que nas vésperas se manifestavam nas ruas da Europa contra essa guerra anunciada. Nunca a Europa esteve tão unida e com o seu povo tão estreitamente solidário para além de todas as fronteiras. No entanto isso não chegou. Só a revolução poderia ter evitado a mobilização em massa da juventude europeia para se matarem uns aos outros num desastre apocalíptico. Foram matar e morrer, uma vez mais em defesa de interesses que não eram os seus, não eram da sociedade, nem sequer da sua Nação. Eram interesses privados, materializados num Estado que os representava.
 A II Guerra Mundial revestiu-se de características diferentes porque opôs os imperialismos modernos à maior monstruosidade que a sociedade humana enfrentou: o nazismo e o fascismo. Isso alterou completamente o seu carácter e legitimou em nome da defesa da liberdade o confronto maior da história da humanidade.

 A globalização e a guerra actual
 

Chegou então a globalização que veio dar cabo do mito do Estado-nação, como cristalização dos interesses gerais dos países e da necessidade do confronto entre eles para defesa dos interesses dominantes.
 Hoje, os interesses privados impostos às sociedades em torno do mito nacional, já não se defendem com a guerra entre potências embora estas ainda imponham alguns confrontos nacionais como forma de disputa por interposta pessoa.

 Já não há literalmente «interesses nacionais a defender». A finança tomou conta do mundo real através do mundo virtual das transacções sem base material.

E isto, mesmo que não entendam, é sentido ou intuído pelos cidadãos do mundo. A Nação e a Pátria já só têm significado real para aqueles povos que estão espezinhados. E, nesse caso, a nação e a pátria são o esteio material,simbólico, político, jurídico e moral, para se libertarem como é o caso da República Sarahui, foi o caso de Timor e ainda é o caso da Tchetchénia ou do Kurdistão.
 

Os superiores interesses da Nação estão cada vez mais reduzidos à defesa da selecção nacional de futebol.

Eis a razão porque partidos tradicionalistas e reaccionários como o PSD e o CDS aceitaram o fim do Serviço Militar Obrigatório. Era uma exigência da sociedade, uma reivindicação sem retorno da juventude que não se revia na necessidade de ser obrigada a bater-se por interesses que lhe eram cada vez mais estranhos. O mesmo se passou noutras sociedades «civilizadas»: Se querem defender interesses privados arranjem-se com tropas privadas, profissionais da guerra. 
 Passou-se então ao voluntariado e profissionalismo, aliás mais despendioso. A Blackwater, ler «A Ascensão do Exército Mercenário Mais Poderoso do Mundo», é uma empresa envolvida em vários escândalos e assassinatos nos próprios EUA, mas sempre  protegida pela administração norte-americana.

Está envolvida na guerra do Iraque e do Afeganistão. As empresas privadas de mercenários vão paulatinamente tomando o lugar dos mercenários institucionais. No Iraque estão actualmente cerca de 120 mil soldados privados que são cada vez mais a verdadeira força de ocupação.

 

Servem ainda para intervir em zonas ou conflitos que interessam aos EUA mas sem estes se comprometerem visivelmente. 
 A guerra actual, como interesse específico do complexo industrial militar, tem agora mais uma componente geradora de liberdade do mercado: os mercenários que estimulados pelos Estados na privatização do que seria a última instância do Estado burguês, a Defesa, poderão substituir-se a estes nomeadamente na definição dos teatros de guerra.
 

Dado o carácter ideológico do mercenário, ou seja tudo é permitido para ganhar dinheiro, eles representam a suprema instância da organização predadora do capital, onde a vida humana deixou de ser sequer ética e juridicamente protegida.

 E têm ainda uma vantagem especialmente apreciável: quando morrem  não perturbam a opinião pública e não se suicida, quase de certeza. 

Mário Tomé 

http://www.acomuna.net

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